Regra geral muitos dos meus amigos, e alguns colegas, dizem-me que “ando sempre fora” ou que “tenho sorte porque passo o tempo a viajar”. Esta é uma realidade que não é assim tão linear.
Realmente, o trabalho que tenho faz-me levantar voo muitas vezes, a maior parte delas para a Europa Ocidental, algumas vezes para os Estados Unidos e (poucas) para a América do Sul e África.
Mas nem sempre a “viagem” é um momento tão agradável.
Em geral estas viagens surgem por convite de uma marca que tem os seus produtos para apresentar aos media, parceiros ou distribuidores. Muitas vezes estas apresentações implicam a ida antecipada e acabam por ser atafulhadas com eventos e extras que, sendo simpáticos, em nada contribuem para o bom aproveitamento do tempo de quem trabalha nesta area.
Sendo assuntos temáticos, as pessoas que acabam convidadas pelas marcas são muitas vezes as mesmas, pelo que de x em x tempo há pessoas que trabalhando na mesma cidade só se encontram em Paris, Londres ou Berlim.
Na área da tecnologia há um fenómeno curioso. A Apple. Regra geral toda a gente tem um destes equipamentos, é uma questão de ditadura da marca da maçã. Eu comprei um portátil porque sempre gostei da funcionalidade do sistema operativo, mas o mais comum são os iPod e os iPhone. Mais recentemente os iPad começam a ganhar espaço nas malas de viagem. Têm uma vantagem significativa, muitas vezes o texto já chega escrito a Lisboa.
Outro aspecto curioso, e por vezes caricato, é a busca de wi-fi / free wireless. O primeiro passo quase imediato na chegada a um evento, feira ou hotel é ver se há rede wireless aberta e com isso ter acesso a conteúdos, redes sociais e e-mail. É um must correr os menus de conectividade....
Mas voltando às viagens, há um lado menos agradável... as perdas de tempo.
Antes do voo é sempre uma hora e meia, depois à chegada o transfer para o hotel, depois a espera para o jantar, depois as horas marcadas pelas marcas que nem sempre são compatíveis com a movimentação de 100, 200 ou 300 convidados. Em muitas das viagens há ainda escalas aéreas. Se o avião de origem se atrasa na saída (muito comum) há o stress de ter, ou não, ligação ao voo seguinte, a corrida entre terminais de Londres ou Frankfurt (o mais comum), as bagagens que não chegam ou (o mais clássico) os voos que são às x horas mas que só saem à 2h ou 3h depois obrigando a ficar num aeroporto, que é um espaço totalmente impessoal, virado para a passagem e não para a estada. As lojas são as mesmas, os preços para cima de caros e a comida -em geral- é má e só nos faz sempre, mas sempre, ter saudades de Portugal.
Há ainda o fenómeno dos hotéis. Mais design ou mais conforto, mais lifestyle ou mais fashion, a verdade é que um hotel é um hotel, no big deal. Um quarto, uma cama, uma tv, uma casa de banho e depois o mesmo de sempre, pequenos almoços que são iguais em todos os países, com rarissimas excepções, horas para tudo. Tem graça nas primeiras vezes, aborrece nas seguintes, deixa de ser uma novidade e passa a ser rotina previsível.
Para o fim ficam as chamadas “actividades”. Os jornalistas, produtores e convidados em geral são várias vezes convidados para um passeio no rio x, na torre y ou para uma visita ao local z. Giro? Sim, algumas vezes, mas num mercado em que as redacções minguam a cada ano e em que as pessoas são cada vez menos, a perda de tempo -muitas vezes um dia inteiro- com estas estas actividades obriga, muitas vezes, a compensações com noitadas e trabalho extra nos dias seguintes, o que seria desnecessário se a apresentação ou a viagem se ficasse pelo essencial.
Ao nível dos conteúdos estas viagens têm também um misto de Public Relations (PR) com vendas. Cada marca tem sempre o máximo cuidado nas apresentações. Tenta-se que nada falte e, imagino eu, gasta-se dinheiro de uma forma absolutamente escandalosa.
Cada produto, cada expositor tem um sentido e há sempre um PR de serviço para “ajudar”. Tenta-se puxar pelas características distintivas do produto, mesmo que por vezes se sinta que são absolutamente inexistentes e que na realidade assentam em pseudo-vantagens que não acrescentam nada ao mercado ou mesmo à linha de produto anterior.
Muitas das vezes há apresentações com os responsáveis de marca, directores gerais e afins. Cada marca consegue sempre ser líder em alguma coisa, se não for na Europa, é no Benelux, se não for no Benelux é na notoriedade, se não for na notoriedade é na percepção do cliente com base no estudo x ou y.
O mercado tecnológico é muito dinâmico e estas situações acontecem frequentemente, sendo que muitas vezes são claramente desprovidas de verdadeiro valor naquilo que, para o cliente final é o mais importante, o produto.
Depois há ainda um "detalhe" muito importante: 15kgs de material vídeo, entre câmara e equipamento em geral, mais a natural mala ou maleta pessoal. Pode parecer pouco, mas horas seguidas a carregar isto atrás, muitas vezes às costas fazem-me, muitas vezes, olhar para muitas destas coisas com um distanciamento menos comum ao que seria normal.
Enfim. No geral, esta é uma actividade recompensadora, permite correr uma série de locais, cidades, países, mas -como em tudo- tem aspectos que poderiam perfeitamente ser modificados e melhorados.
Durante uns dias vive-se uma realidade alternativa, depois aterra-se na Portela, em Lisboa, e tudo regressa ao normal. A começar pelo (mau) serviço da Groundforce com as malas e seguindo depois para o preço do parque de estacionamento...