(texto editado a partir de um e-mail enviado a um camarada do PS)

Antes de mais, para que não fique dúvida alguma, o meu voto será naturalmente para o PS, muito especialmente pelo facto de o mesmo poder contribuir para a eleição de alguém que nos é próximo em termos de estrutura, mesmo que conheça pouco a pessoa e a impressão que tenho -do pouco que conheci- não ser propriamente a de uma pessoa à altura deste cargo, mas admito poder estar naturalmente errado.
Depois acho que, se perdermos a eleição, a culpa é acima de tudo muito nossa, independentemente de muito se levantar nestes dias uma onda opinativa negativa para com os media.
Portugal, pelas escolhas políticas que os decisores foram tomando nos últimos 20 anos não tem tido a evolução produtiva e estrutural que era desejado, para o tipo de vida que levamos.
Evoluimos certamente mas foi uma evolução assente não na criação de riqueza para o estado, logo para as pessoas, mas sim na base do crédito que foi sendo mais ou menos fácil (Jorge Sampaio alertou para isso ainda quando era presidente), agora que o crédito fácil se acabou voltámos à realidade do que somos e vai custar muito, a todos.
Dito isto, no momento político em que estamos, creio que a escolha do actual Sec.Geral para candidato a PM foi errada (link:
http://omeioeamensagem.blogspot.com/2011/03/5-razoes-porque-este-governo-nao-passa.html). Tão simplesmente porque a sua escolha, com a imagem e o papel que teve e tem, faria com que a campanha nos fosse desfavorável desde logo, passaríamos o tempo a levar pancada pelo que fizemos ou deixamos de fazer, pelo que dissemos ou deixamos de dizer.
Esta seria a campanha e o resultado seria sempre negativo, pois teríamos de passar o tempo a defender uma posição, quando a nossa posição de partido de governo merceria uma atitude de campanha distinta, defensora e “assumidora” das dificuldades que nos esperam mas com ideias e para os tempos que se avizinham.
Está nos livros de gestão de Porter, que a defesa de uma posição se deve fazer diversificando e gerando meios de canibalização da nossa posição, evitando assim que esse espaço seja ocupado por outros.
Uma nova cara assumiria de uma vez as dificuldades que passamos, mas teria naturalmente uma necessidade de se afirmar diferente, sendo rejeitadas à partida todas as críticas ao anterior PM, que já lá ia e haveria a natural necessidade de lançar ideias e assuntos para a mesa de campanha, retirando espaço de jogo à oposição
Mas as coisas não foram assim e, eleito que foi o actual Sec.Geral, veio o momento político de campanha e pré-campanha, mais uma vez creio que cometemos erros atrás de erros. Temos tido receio de assumir as coisas como elas são, e os exemplos são muitíssimos, estes são apenas alguns:
Primeiro não se governa com o FMI (link:
http://aeiou.expresso.pt/socrates-nao-esta-disponivel-para-governar-com-fmi=f638738), mas aplaude-se o que foi um bom acordo e é-se candidato (link:
http://youtu.be/qKtDDqDBSf8), depois assumem-se as coisas pela metade quando estamos fartos de saber que as mesmas vão acontecer pelo todo (ex: redução da TSU, que o nosso Sec.Geral passou dias a dizer que seria lenta e progressiva e que não concordava com reduções acentuadas (link:
http://www.ionline.pt/conteudo/122703-eleicoes-socrates-defende-reducao-da-tsu-quando-houver-margem-orcamental-louca-quer-renegociacao-dos-juros) afinal está por lá escrito nos acordos que será “major” e de preferência rápida).
Depois corre-se o risco patético de assumir que este acordo chega e que não haverá necessidade de mais esforços para os portugueses (!) (link:
http://www.tsf.pt/Eleicoes/Legislativas2011/Interior.aspx?content_id=1863949) que raio... ninguém está em posição de assumir isso, quando não fazemos ideia como vai ser a execução de um orçamento e de uma gestão do país face aos seus credores, Durão Barroso disse isso em 2002 e aumentou o Iva, Sócrates disse isso em 2005 e aumentou o Iva. Já não há ilusões que as pessoas preferem ouvir as coisas como elas são e a verdade é que num país como o nosso, dizer que este acordo chega é gozar com as pessoas, o estado tem uma notória falta de liquidez, endivida-se a uma taxa de juro que muito dificilmente vamos conseguir pagar e o nosso discurso é este?
É pena que tantos assessores não consigam abrir uma janela de humildade no nosso Sec.Geral, que claramente vive muito da sua própria ilusão das suas crenças, que são muitas vezes comparáveis a actos de fé.
O momento actual faz-me lembrar muitos momentos de alguns nossos apresentadores de programas produzidos pela Sigma3: chegam a um ponto de relativa fama e deixam-se iludir pelos convites, pelas festas, pelas viagens dos patrocinadores, depois começam a achar que aquele estilo de vida é que é "bom e normal", mas a realidade deles é outra... e quando os programas acabam ou deixam de os apresentar, as marcas deixam de os convidar para os eventos e voltam aos "amigos lá do bairro ou da rua".
Depois há os media. Os media vivem de soundbytes, vivem da necessidade de preencher telejornais de 1h quando só há notícias para 30 minutos e por isso aproveitam tudo, umas vezes corre bem outras corre mal, exemplos como os paquistaneses e indianos do Martim Moniz eram óbvios que iam marcar o espaço dos media (link:
http://www.tvi24.iol.pt/aa---videos---politica/campanha-legislativas-jose-socrates-ps-eleicoes-tvi24/1255016-5796.html).
Quem terá sido o génio da campanha que não percebeu isso? Precisávamos mesmo daquilo? Toda a gente arregimenta gente para os seus autocarros, mas aquele momento foi escusado.
Se reparar bem e se for uma pessoa atenta ao que se passa nas tv's, a partir daí todas as televisões passaram a fazer peças diárias sobre “o outro lado da campanha” e muitas vezes não saímos bem na fotografia, seja por situações como estas, seja pelos descontentes de serviço que aparecem sempre (vide p.explo o caso ontem do tal externato em Torres Vedras. Um avião no ar e uns manifestantes na beira da estrada são exactamente aquilo que os media precisam para ajudar a encher a meia hora que lhes falta todos os dias).
Depois, ainda a campanha, acho que fizemos uma campanha perto do miserável, passámos o tempo a discutir os soundbytes do terrivel candidato do PSD (link:
http://www.dn.pt/Inicio/interior.aspx?content_id=1865480), perdemos o nosso tempo a responder aos temas (muito deles aterradores) que o PSD e os outros lançaram, defendemos quando deveríamos ter assumido a postura “é o que temos, os tempos que ai vêm não são fáceis, estamos aqui para trabalhar e encontras as melhores soluções para isto, para aquilo, deste modo, daquele modo”.
Tenho feito um exercício de auto-critica para também não tomar errado o meu pensamento, para o confirmar ou não, mas uma passagem diária pelos media levam-me a anotar nos últimos dias (e verificar) que os temas chave da campanha do PS que foram passando para os media diariamente, e foram mais ou menos estes:
29.5: Sócrates acusa psd de campanha de ressentimento
28.5: Sócrates acusa psd de apenas se querer vingar
27.5: Sócrates acusa psd de zig-zag na liderança
26.5: Sócrates acusa passos coelho de não ter obra para mostrar (óbvio !! nunca fez nada)
24.5: Sócrates diz que passos coelho põe em causa o interesse nacional
23.5: Sócrates diz que a posição do líder do psd sobre o aborto é irracional
O que é isto ?? Passámos demasiado tempo da campanha a dar importância ao PSD.
Em ver de liderar a agenda dos media, seguimos a agenda dos outros e isso vai marcando pontos na cabeça das pessoas, dos eleitores, que (muitos) já estão naturalmente insatisfeitos, seja porque perderam um abono, seja porque lhe baixaram o salário, seja por outra coisa qualquer.
Em vez de liderar a campanha e ganhar de volta a nossa posição de partido de governo perdemos tempo com um lider da oposição impreparado, mediocre, que terá dificuldade em organizar uma empresa, quanto mais um partido e um país!!
Para terminar, e para reforçar o factor “escolha errada do candidato a PM”, temos o cerco político a que Sócrates foi votado. Toda a gente, da esquerda à direita (link:
http://economico.sapo.pt/noticias/nprint/117670.html) (link:
http://www.tsf.pt/PaginaInicial/Portugal/Interior.aspx?content_id=1828371) assumiu não querer coligar-se com ele, o PCP (imagine-se!!!) chegou ao ponto de dizer que com o PS até podiam pensar em encontrar uma solução de esquerda, mas sem “o Sócrates”.
Na cabeça dos eleitores vai-se formando a ideia, “então mas se ninguém se dá com ele, como é que ele vai ser solução para alguma coisa”, esta forma de política não mata mas mói...
Ao termos encontrado uma figura alternativa para candidato a PM, teriamos muito provavelmente ganho estas eleições com facilidade, muitas pessoas que vão votar no PSD (ou no CDS) são nossos potenciais eleitores e não votar nesses partidos pela convicção política, antes será um “não voto no Sócrates”.
Com um lider da oposição fraco, que mudou de ideias de manhã para a tarde umas 10 x nesta campanha, que teve necessidade de arrumar a um canto, ou de mandar para fora do país, os seus amigos e mentores políticos, então não levávamos isto a melhor? Um António Costa, um Vitorino ou outras figuras que estão menos expostas a estes momentos dos últimos 2 ou 3 anos não nos teriam sido mais vantajosas? Eu estou em crer que sim. O partido tem-lhes permitido acomular credibilidade pública em cima da sua capacidade pessoal e profissional, estaria na altura de receber algo em troca, a sua disponibilidade
Os indecisos são ainda muitos, as sondagens às vezes erram porque a margem de erro pode permitir ajustes na contagem real, e espero que possamos ainda ganhar as eleições ou pelo menos que o oportunista do Portas e o impreparado do P.Coelho não tenham uma maioria, sendo assim o PS essencial a uma solução de governo. Se assim não for creio que o PS precisa de pensar bem o que fazer e como chegar às pessoas, porque estes tipos do PSD vão aproveitar-se das dificuldades que nos foram impostas pelo FMI e UE para concretizar a agenda destas instituições, mas também para lançar uma ou outra das suas ideias que em muito nos penalizarão.
Espero ter tido a paciência da sua leitura, naturalmente consciente que não será certamente a sua opinião.
Abraço
Nelson Filipe Patriarca