Os meios de comunicação existem num espaço livre, mas concorrencial, por isso mesmo abafam-se uns aos outros com o ruído que produzem diariamente e que torna difícil distinguir os fait-divers da notícia. Mais uma vez se demonstra á exaustação que, de facto, o meio condiciona a forma como a mensagem é transmitida e esta adopta as características do meio que a divulga.
Falou o primeiro ministro, falaram os ministros, comentaram os jornalistas e os comentaristas residentes.
Desta salganhada toda resulta algo que há anos que comentamos aqui na Sigma3:
- somos um país pobre a "fazer figura e rico com as calças dos outros";
- a oferta fácil dos bancos e o desejo hedonista das pessoas levou-as a comprar coisas que não podem pagar;
- o estado é grande demais, consome muitos recursos para colocar quase nada na economia e tem gente (muita gente) a mais;
Claro que um dia o crédito ia acabar, como acabou, e os "novos ricos" estão a voltar, a pouco e pouco, ao que sempre foram, gente remediada, muitos honestos e trabalhadores, a maioria sem condições verdadeiras para sustentar aquilo que a ilusão consumista os levou a adquirir (muitas vezes a crédito e a taxas absolutamente irreais).
Entertanto vamos ter de mudar de vida e, dramaticamente, muitos não sabem o que fazer. Foram habituados a comprar na loja, a tirar da prateleira do supermercado, a comprar para ganhar tempo. Isso agora vai mudar e vamos ter de ser capazes de inovar, de gerar produtos e serviços que interessem a alguém comprar e vamos ter de nos superar para ser melhores que o resto da concorrência, pois há um mundo lá fora a concorrer conosco, algo que muitos sindicatos insistem em não perceber e que muitos políticos, empresários e funcionários das empresas do estado tendem a sacudir do capote.
De algum modo há (e vão haver mais) casos que são dramáticos, de pobreza e de incapacidade de ter ser viável financeira e pessoalmente, mas confesso que há um caso em particular de quem não tenho pena nenhuma, os construtores civís e os autarcas que betonizaram o território até ao impossível, sobrando agora milhares de casas não ocupadas, inacabadas e sem procura. Uns porque tinham capital para pagar as taxas de que viviam as autarquias, outros porque dependiam dessas taxas para manter os gastos das suas autarquias e todos os funcionários, amigos, amigas, namorados, maridos e, certamente, familiares, a quem arranjaram emprego "a fazer qualquercoizinha...".
O crédito acabou, José Sócrates e o PS (que, diga-se, fizeram uns péssimos 3 últimos anos de governação) foram eleitos os culpados de tudo e a imprensa, no geral, ajudou na festa, carregando uma espécie de vingança bacoca, para dentro das notícias e do espaço dos media. Rei posto, rei Morto, como se costuma dizer.
Veio um novo governo, vieram as conferências de imprensa do ministro das Finanças (por quem nutro simpatia pela forma de encarar as coisas) nas quais algo era sempre cortado (em geral os salários) e agora chegou-se quase, quase á cereja do bolo (sim, ainda vai vir pior, esperem por meados de 2012). Esta quase cereja é o orçamento para 2012 e tudo aquilo que ele trás associado.
Como diria Bruno Nogueira: "têm aqui o governo em que votaram, aproveitem". Tanta era a ânsia dos partidos de esquerda em derrubar o PS (porque, segundo eles, tinha políticas de direita), que agora lhes estão a cair em cima as consequências deste acto, ou seja, agora têm um governo que corta pensões e subsídios e que é verdadeiramente de direita.
Nos anos 80 o meu pai tinha um pequena hortinha onde cultivava muitos dos legumes que consumiamos em casa, muitos pensaram que esse tempo já tinha passado. Eu acho que está cada vez mais presente e que, em muitos locais, o dia a dia das pessoas vai regressar aqui. Vamos perceber que perdemos 30 anos.















