A falência de 2008
Segundo os locais 2008 representou o "rebentar dos 3 peixe-balão", ou seja, os 3 principais bancos islandeses que foram crescendo tanto (e de forma ilegal) que acabaram por ter nas mãos uma bomba relógio de alavancagem sobre alavancagem financeira. Algo tão grande que o próprio banco central Islandês estava incapaz de os ajudar.Investimentos e aplicações de origem duvidosa, especialmente no Reino Unido e Holanda, empréstimos em moeda estrangeira ilegais e todo um conjunto de aplicações para lá do legal em ativos tóxicos, fizeram rebentar a bomba e, de um dia para o outro, o que valia 10 passou a valer 5, com a desvalorização da moeda, mas os custos de bens, serviços e empréstimos mantiveram-se.
Foi dramático pereceber, segundo alguns locais com quem falei, que de um dia para o outro o que podiam ter, comprar, aceder se reduzia a metade. Obras pararam, empresas faliram, os três maiores bancos também e o desemprego passou para uns 15%.
O Banco Central da Islândia já tinha pedido a intervenção das autoridades britânicas quase um ano antes do rebentar da crise, a locura financeira de então não levou a qualquer intervenção e é por isso que hoje (depois de um referendo esmagador com 90% de não) que os Islandeses recusam pagar muitos dos créditos que os bancos e clientes ingleses e holandeses dizem ter sobre o país.
Ainda houve uma possibilidade de cada islandês pagar um valor de cerca de 120€ para abater esta dívida, mas o povo revoltou-se e no tal referendo decidiu não pagar. Um pendurado que fica para mais tarde, certamente que ingleses e holandeses não perderão a possibilidade de "pedir" este valor quando chegar a altura da Islândia entrar na UE (visto que o pediram)
Os três banqueiros e alguns políticos ligados ao governo (incluíndo o ex-primeiro Ministro) e à área económica foram detidos e estão a ser julgados, o antigo primeiro Ministro foi condenado por um crime menor, mas na realidade nenhum outro foi ainda condenado.
Segundo o Jón, embora seja evidente que apostaram o que não deviam naquilo que não deviam, há sempre refúgios na lei que têm permitido não haver condenações efetivas dos banqueiros.
Lá, como aqui, ter um bom advogado ainda vai sendo uma mais valia para quem tem algo a que fugir.
Estes empréstimos que mantiveram o valor, por serem feitos em Euros ou Libras, muitas vezes sem conhecimento dos titulares, acabaram por ser uma corda na garganta para muitos islandeses, especialmente jovens casais, que agora têm uma dívida duas vezes superior ao que pediram emprestado e que estão a ter alguma protecção do estado para regulaizarem a situação e não irem, também eles, à falência.
Segundo o Concerige do Hotel Hiton Nordica, há uma comissão de cidadãos que está a trabalhar naquilo que será a revisão da constituição do estado, ou pelo menos em alguns pontos. Têm trabalho feito e apresentado, mas nem todas as alterações têm sido aprovadas de acordo com o que muitas pessoas esperava. De todo o modo o trabalho está em fase final e será referendado, só depois entrad em vigor.
Ainda assim é espantoso perceber como o estado se rege pelos claros desejos da sua população, ao ponto de esta ter capacidade e espírito coletivo para se organizar em assuntos tão importantes como este.
Outros aspectos da sociedade
A longa conversa com o Concierge do Hotel permitiu ainda perceber mais algum bocado da Islândia. As crianças são encaminhadas, desde cedo, no ensino das artes e da música, o pré-escolar ensina-lhe as cores, as rotinas e as brincadeiras, mas também o seu país e os hábitos sociais. A prendizagem do inglês é obrigatória em paralelo ao islandês e, por isso, a quase totalidade da população fala inglês sem qualquer tipo de problema.Militarmente pertencem à NATO, embora não tenham forças armadas nem serviço militar. São outros países da Organização do Tratado Atlântico Norte que garantem a segurança militar e a vigilância da costa, entres eles a Alemanha, Espanha e.... Portugal, com os nossos P3 Orion.
Tiveram até há 4 anos uma pequena base aérea americana, mas a crise económica levou os militares e deixou as casas onde viviam e as antenas de comunicações, que agora são usadas para vigiar a costa.
Curioso foi o destino dado a muitas das casas dos ex-militares norte americanos, pequenos blocos de 3 pisos. Foram entregues a famílias com dificuldades devido à crise que abalou o país (entregues, entenda-se cedidas sob um custo mensal mais aceitável do que a anterior renda).
Aliás, com tanta costa e com a pesca como atividade principal, seria de esperar haver marinha para vigilância e salvamento. O Jón garante que não, a vigilância é feita a partir de postos fixos na costa e dos navios e patrulhas aéreas da Nato.
O salvamento no mar é feito localmente, por voluntários que são treinados e que podem ser chamados a qualquer momento, podendo deixar o seu emprego para socorrer quem está no mar em apuros. Segundo parece não há ganhos financeiros, apenas o espírito solidário para com os seus e o facto de lhes ser entregue, pelo estado islandês, o melhor e mais avançado equipamento, sejam lanchas, insufláveis, gps ou outro material de busca e salvamento.
Extraordinário!
Pelo que percebi, funcionam um pouco como os nossos bombeiros voluntários, mas sem permanência em qualquer quartel e com material do melhor.
As casas não são baratas. Lá, como cá, são um dos mais pesados investimentos que podem ser feitos por uma família. Apesar de haver prédios nas cidades e vilas, estes não são demasiado comuns, essencialmente porque há espaço com fartura para caberem todos em casas térreas ou de 1 piso.
Segundo o Jón, o meu guia nestes dias, o custo do terreno não é elevado, mas a construção de uma casa é, essencialmente porque há muita burocracia envolvida, algumas licenças de engenharia que têm de ser dadas e porque os materiais são, na quase totalidade, importados.
Os impostos a pagar à "autarquia" pela construção também são elevados. Em contrapartida o IMI local anual não é demasiado caro. O Jón diz-me que a sua casa tem 160m2 e paga algo como 45.000Kr, ou seja, 200€por ano.
A construção na se verga aos patos bravos que conhecemos em Portugal, em especial nas áreas metropolitanas. Aqui todos os planos submetidos ao conselho de obras públicas locais têm de ser apresentados por engenheiros e incluir métodos e materiais de construção que assegurem que toda a estrutura da casa possa resistir a sismos até 6.5 na escala de Richeter, além de resistir à intempérie constante (visto que há sempre humidade e o vento marítimo trás sempre com ele a chuva cortada e baixa). Há também que ter em conta a neve e os invernos rigorosos.
Estes planos de contrução têm normalmente que ter osescoamentos de águas, de modo a que estas sejam re-aproveitadas o mais possível, evitando assim gastos desnecessários (mesmo que haja água com fartura por estes lados), um hábito que nós não temos com quase nada em Portugal.
A construção não seria hipótese para os biscateiros portugueses, aqui só se podem construir casas com empresas certificadas e com um número mínimo de engenheiros na sua equipa.
Uma diferença abismal face a nós.
(continua...)












