Curiosidades soltas
Na estrada que liga o aeroporto a Reyjavik há uma escultura de arte urbana que não consegui fotografar. Basicamente são dois carros, meio desfeitos e resultantes de um acidente. Estão expostos, com algum nível de inclinação, num pedestal a 3 ou 4 metros de altura. A base que suporta estes dois carros é um pé cilindrico preto com uma cruz branca desenhada, contendo no meio o número 7.
Perguntei ao nosso guia desse dia o que era aquele número e ele disse-me que eram os mortos em acidentes na estrada este ano, um número que segundo ele é dramático, pois é já superior em 2, ao do ano passado! De facto a condução aqui é levada a sério e os limites de velocidade não variam muito dos nossos: 50kmh dentro das cidades, 70kmh na aproximação às zonas urbanas e 90kmh nas restantes estradas.
É no entanto fácil perceber que são melhores condutores do que nós, pelo menos (de forma relativa ao nº de habitantes, têm muito menos mortos na estrada)
Ainda sobre transportes.
A não existência de comboios parece que é algo que não incomoda os islandeses, no entanto por estes dias discute-se no governo, e na comunidade de Rejkyavik, a possível construção de uma linha de comboio entre Keflavik, onde fica o aeroporto, e a capital. Será uma linha com duas paragens pelo meio e com uma extensão de 50kms.
Ao que parece há defensores deste investimentos e grupos de cidadãos que estão contra. Segundo o Jón, o mais certo é haver um referendo à ideia, sendo feito aquilo que a comunidade decidir.
Economia e alimentação
A seguir à pesca e à transformação do pescado, a indústria do alumínio é a mais importante fonte de receitas, exportações e emprego. São já três as fábricas instaladas, todas elas da empresa australiana Rio Tinto. Ao que parece estão aqui a convite do governo islandês que lhes acenou com um preço muito barato do factor crítico mais importante no preço da produção de alumínio em grosso: a energia.
Uma quarta fábrica está em construção e esta súbita paixão pela produção de alumínio não será alheia ao facto de a desvalorização da moeda local. Uma decisão sempre positiva para quem quer exportar.
Ainda sobre pesca. Os pratos com tubarão e bacalhau são dois dos "must" da cozinha islandesa, embora o bacalhau seja consumido fresco e não tanto curado. A isto acresce a carne de ovelha e de cordeiro. Provei um pouco de tudo e não me posso queixar de nada, embora a comida mediterrânea "me guste" mais.
Cultura
Os islandeses tiveram até agora um único prémio nobel, o da literatura em 1954. Ao que parece o senhor já morreu há uns anos, mas a sua casa, na estrada à saída de Rejkyavik é perfeitamente visitável, basta tocar à porta. Facto igualmente notório é o facto de o primeiro ministro e restantes membros do governo terem os seus números de telefone na lista nacional e de usarem os seus próprios carros para trabalhar.
Um exemplo que devia ser seguido por estes lados.
A ilha (a parte que conheci)
A beleza natural da Islândia, com vulcões, terra árida, vegetação e animais, tudo num espaço muito próximo, é inquestionável. No global, a vegetação é pouca e tal deve-se às condições adversas do clima e ao facto e existirem 600.000 ovelhas, que andam livremente nas terras, sendo recolhidas apenas no inverno. Ora está bom de ver que andando à vontade não há vegetação que resista.
Um facto estranho ao início é a falta de árvores, seja porque poucas resistem ao solo e ao clima, seja porque as ovelhas, cavalos e outros animais acabam por não as permitir crescer.
Aliás, cavalos é algo que também por lá há com fartura. Ao que parece há cerca de 100.000 registados, o que dá 1 por cada 3 islandeses.
Antes eram usados para apoiar na agricultura e no transporte de bens, hoje servem essencialmente para lazer e para um ou outro apoio na agricultura.
Por falar em animais, há que dizer que há uns anos tentaram introduzir porcos, para diversificar a oferta alimentar, mas os pobres animais não resistiam sem grandes cuidados veterinários, que eram caros, e esta tentativa foi abandonada.
Também as renas, trazidas da Noruega, que foram alvo de uma tentativa de introdução na totalidade do território islandês. Também neste caso a tentativa não foi bem sucedida, se bem que com uma nuance. No extremo este do país, as renas não só resistiram, como também se reproduziram existindo uma comunidade com alguma dimensão.
Os islandeses brincam com este facto dizendo que naquele extremo estão mais perto da Noruega e que ali sentem menos saudades de casa.
Um exemplo da metódica organização local
As renas são aliás possíveis de usar como exemplo para mostrar a organização e o sentido local.
Uma vez que se têm reproduzido no extremo este, tem havido a preocupação de controlar a sua população à volta das 2000 cabeças, para manter este limite vendem-se.... licenças de caça.
Ou seja, as mais velhas, especialmente os machos, são seleccionados pela autoridade nacional de caça e podem ser alvo dos atiradores islandeses que pagam licenças anuais, caras ao que dizem, para poder caçar 4 meses por ano.
Acresce o facto de não poderem caçar à vontade, há uma área específica e cada caçador tem de estar acompanhado por um fiscal da natureza que indica quais os alvos possíveis, isto porque as renas, tal como outros animais, andam em espaço aberto pelo território.
Outro facto curioso são as vacas que são muito pequenas face ao que estamos habituados. Além disso o malhado branco e preto é menos comum, sendo mais usual a cor escura. Ao que parece isso deve-se ao clima, que geneticamente as faz crescer pouco. No que diz respeito à produção de leite confesso que não senti nada de diferente por este facto, o leite soube-me exactamente como qualquer outro leite do norte da europa.
Natureza
Em termos de natureza a Islândia é extremamente diversificada, há vulcões, gysers, terra árida e inóspita, vegetação baixa e até uma floresta, na zona central, no único parque nacional da ilha. Pelo meio, segundo contam, é um dos únicos dois locais no mundo (o outro é no Kenya) onde é possível ver in loco onde começa uma zona tectónica e acaba outra.
Os milhares de anos pós era glaciar foram trazendo, por força das migrações de aves, os primeiros sinais de natureza e esses não seriam muito diferentes daquilo que hoje encontramos junto às cinzas de um vulcão adormecido há várias centenas de anos: vegetação rasteira, pouco crescida e muito semelhante a musgo.
Pelo meio ainda muito espaço ocupado pela pedra vulcânica.
Em zonas como esta, e existem várias na Islândia, a chegada de novas fases de vegetação demorará anos, dezenas ou centenas de anos.
Uma das espécies que melhor se adapta a este clima são as coníferas, como o pinheiro nórdico. Nesse sentido, há um instituto florestal que está há uns 20 anos a promover a plantação controlada desta espécie, sendo plantadas entre 6 a 10 mil árvores por ano, muitas vezes em verdadeiros encontros de islandeses com a natureza, pois são levados (ou convidados) pelas autoridades a contribuírem com o seu trabalho para este bem da comunidade.
Muitas não resistem mas, curiosamente, é exactamente na zona central da ilha, entre a separação da placa tectónica americana e euroasiática, que a espécie mais se desenvolveu, ao ponto de esta faixa de 5 ou 6 kms ser considerada Parque Nacional, pelo que não são permitidos animais. Resultado: há vegetação alta, com estamos habituados a ver e há um habitat que cresceu em simultâneo que parece saído do nada, quando comparado com o restante território.








